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Ícone no mercado de cervejas, Kathia Zanatta conta como se tornou referência na profissão

Kathia Zanatta é hoje uma das referências no mercado de cervejas do Brasil. É a primeira brasileira formada Sommelier de Cervejas pela Doemens Akademie, em Munique, na Alemanha. Mas, para os mais de dois mil alunos já formados por ela no Instituto da Cerveja Brasil (ICB), é mais conhecida como professora.

Sua formação inicial foi em Engenharia de Alimentos, época na qual se apaixonou pelas cervejas. Também realizou o curso de mestre cervejeira pelo Siebel Institute, em Chicago, nos Estados Unidos e se especializou em análise sensorial na Universidade de Campinas (Unicamp).

Kathia Zanatta
Kathia Zanatta

Em 2010 fundou ao lado do marido, Alfredo Ferreira, também mestre cervejeiro, e do amigo Estácio Rodrigues, as raízes do que viria a ser o ICB: o primeiro curso de sommelier de cervejas do Brasil, em parceria com a Associação Brasileiro de Sommeliers de São Paulo. E de lá para cá, não parou mais! Diante desse cenário, nada melhor do que trazermos um ícone feminino da cerveja em um bate papo sobre como ela se tornou referência num meio ocupado em sua maioria por homens.


Quando começou essa paixão por cerveja?

Foi na faculdade. Fiz Engenheira de Alimentos. Logo no começo cursei uma disciplina de tecnologia de bebidas e que continha tecnologia cervejeira. Me apaixonei. E decidi que eu queria trabalhar com cerveja. E fui atrás de estágios.

Como tinha estudado em colégio alemão, eu já tinha o sonho de morar na Alemanha. Vi nisso uma oportunidade de unir as duas coisas, já que é um país com grandes tradições cervejeiras. Comecei a mandar currículo, procurar contatos e houve uma grande coincidência: havia uma alemã na UNICAMP que estava fazendo intercâmbio e precisava de ajuda com algumas burocracias.

Por fim, ela me indicou alguns contatos que trabalhavam com cervejaria. Enviei currículos e acabou dando certo na Paulaner. No começo eu me interessei muito pela tecnologia e não pela bebida em si. Eu quase não bebia cerveja naquela época. Quando fui para Alemanha, em 2005, é que eu aprendi a beber e conheci outros estilos de cerveja. As American Lagers nunca foram uma paixão, mas a Weizebiers, Helles e todos os estilos alemães começaram a me ensinar um pouco mais deste universo. Voltei apaixonada não apenas por fazer cerveja, mas também por degustá-la.


Quais foram as principais dificuldades no início da sua carreira?

Na parte de sommeleria não tive. Na parte de tecnologia, de chão de fábrica, dentro de uma grande empresa, por ser mulher enfrentei alguns preconceitos. Mas isso nunca me abalou. Sempre fui muito segura. Para mim, sempre chegou um momento que dava respostas que tinha que dar e, inclusive, com essas respostas, ganhei o respeito de cervejeiros mais velhos. Nunca deixei ninguém passar por cima da minha opinião pelo fato de ser mulher. Eu acho que conquistei o respeito de muita gente me impondo.


Existe alguém que você se inspirou e admira no cenário cervejeiro? Quem e por quê?

A partir do momento que comecei a ter contato com as pessoas do universo cervejeiro, várias figuras me inspiraram. Uma pessoa muito importante para mim foi meu primeiro chefe, Martin Zuber, mestre cervejeiro da Paulaner. Ele me deu forças, me incentivou em um momento que, em 2005, poucas mulheres estavam nesse mercado. Me inspiro nele até hoje.

Depois, aqui no Brasil, o mestre cervejeiro Peter Ehrhardt, também foi uma pessoa que me inspirou, assim como muitos outros profissionais que eu trabalhei. Se eu pensar em um ídolo, extremamente admirável, é o professor Narcis, da Alemanha. Ele tem 90 anos, continua trabalhando, tem uma memória incrível, disposição, e é um cervejeiro admirável, tanto quanto pessoa também.


Qual assunto você mais sente prazer de conversar e compartilhar?

O que eu mais gosto hoje, o que mais me dedico, são os estilos de cerveja. Acompanho tudo o que surge e, principalmente, o que é voltado para análise sensorial. Harmonização também é outra área que gosto, que eu tento entender, ler e compartilhar, cada vez mais de uma forma mais técnica e menos subjetiva, procurando sempre estudos sérios. Acho que a gente precisa encontrar as bases e as comprovações das teorias de harmonização.


Quais são os desafios e responsabilidades de ser professora e também juíza de cervejas?

Ser professora é um grande desafio. As pessoas vão levar para a vida o que nós falamos em sala, vão levar para suas carreiras. Procuro sempre passar meus conhecimentos de forma segura, de forma correta, por isso sempre continuo lendo e estudando. É uma grande responsabilidade. Nos concursos, da mesma forma. Estamos julgando o trabalho dos outros. É necessário julgar com muita concentração, com muita dedicação.


Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Um momento muito marcante para mim foi quando trabalhei como trainee e desenvolvi meu projeto na Baden Baden, em Campos do Jordão. Quando eu apareci lá, o pessoal das antigas me olhava meio torto. Cheguei a levar uns “coices” do mestre cervejeiro da época. Mas devolvei à altura e acabei conquistando ele e todos os funcionários. As coisas mudaram a partir daí. Cultivamos um relacionamento muito bom e no final me deram o uniforme deles. Fico até emocionada. Aquilo para mim foi um gesto que nunca tinha acontecido, de eu ter conquistado a confiança, de ter mostrado para eles que trabalhei pra valer.


Com toda a sua experiência em análise de cervejas, você consegue descansar? Quer dizer, consegue beber uma cerveja sem analisar ou é algo automático?

Não. Eu tenho momentos de descanso. Tem horas que quero pegar em uma long neck e beber no gargalo (risos). E há outros em que nem quero ver cerveja na frente. Quero um vinho! Então, sim, nos meus momentos de lazer eu desencano. Mas também bebo uma super cerveja, apreciando, por prazer.


Qual foi o estilo de cerveja que mais agradou seu paladar no início da carreira? E hoje, qual é? O paladar muda nesse sentido?

Com certeza a gente evolui. No início da carreira foi a Weiss, até porque tudo começou na Alemanha. Hoje ainda gosto, é bastante refrescante e saborosa, mas meu estilo favorito atualmente é Flanders Red Ale. Eu sempre apreciei alimentos ácidos e isso na cerveja também me envolve bastante. Mas como nosso paladar evolui, talvez daqui alguns anos esse não seja mais o predileto.


Existe alguma harmonização que você não esquece de tão delicioso que foi?

Sim! Várias. Fiz um monte que foram fantásticas. Tem uma na minha memória, durante aula de harmonização: trufa de chocolate amargo, caramelo e sal defumado com uma Imperial Stout envelhecida em barril de Bourbon. Foi uma das harmonizações mais fantásticas, mas há várias outras.


A Heineken é uma das cervejas que você aprecia? O que você acha dela?

Sim. A Heineken é uma daquelas cervejas que eu gosto de ter na minha geladeira e que não troco por nenhuma. Quero ir lá, abrir, me refrescar, principalmente agora com este calor. É uma excelente opção. Eu gosto muito dela. Acho que a Heineken consegue pegar consumidores dos dois lados: quem é de cervejas especiais não deixa de amar a Heineken e quem prefere as mainstream, também gosta de Heineken. Ela tem personalidade, tem corpo, tem amargor na medida certa, é refrescante, é uma ótima cerveja.

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